Se conheceram, melhor, souberam da existência um do outro através de um blog, na verdade dois blogs, um admirava as palavras da outra, que apreciava os textos do um. Romance moderno é assim, cada um usa o recurso de seu tempo, e como essa história não aconteceu com Romeu, nem com Cleópatra, e assim que ela segue: com as conversas de Msn.
Nesse caso, ninguém queria ser qualquer um, dá-lhe destilar o conhecimento literário, próximo ao zero de um, muito maior que isso da outra. Não importa, o que importa é que a conversa passava longe do “Será que vai chover?”. O papo flui, a admiração corre, a conversa convence, o que falta? Falta se conhecer. Claro, isso de conversar ao vivo é coisa do passado, a moda agora é conversar no teclado (Perdoem o trocadilho, micareteiros de plantão), e assim seguiu por tempos e tempos, decepções amorosas de um, reencontros afetivos de uma, entre conversas e cantadas de um lado, Aldrous Huxley, Gabriel García Márquez e tocos do outro.
Mas havia uma razão mais forte que as conversas para eles se encontrarem. Uma promessa. Ela prometeu que lhe emprestaria um livro e ele prometeu...bom, ele não prometeu nada. Se encontraram, sem jeito, sem muitas palavras, sem tempo, o livro trocou de mãos e seguiu um rumo diferente do de costume. Parecia até que nunca tinham se visto, hmm, nunca tinham mesmo se visto, mas a conversa era tão profunda que pareciam parceiros de décadas, mesmo que ambos não tenham vivido mais que duas.
O livro nunca mais voltou pra casa, os dois nunca mais voltaram a se ver e a conversa via web perdeu a graça. Ela não existia, surgiu apenas para lhe entregar aquele livro, como se aquilo fosse o manual de instrução de sua nova vida.
